É crescente e preocupante o número de adolescentes e adultos que buscam escuta e apoio em inteligências artificiais, especialmente em situações de vulnerabilidade psíquica e em casos de quadros delirantes.
Em momentos de grande fragilidade mental, algumas pessoas podem receber da IA a validação de histórias que não condizem com a realidade. Isso pode acontecer porque muitos sistemas tendem a concordar, suavizar conflitos ou reforçar narrativas apresentadas pelo usuário, em um funcionamento que pode gerar uma espécie de bajulação algorítmica.
Nesses casos, a validação de uma narrativa distorcida pode colocar em risco a vida da própria pessoa e também de sua família.
IA não substitui cuidado profissional
Uma equipe de profissionais da saúde, assim como o apoio de familiares e amigos, jamais será substituída por uma inteligência artificial.
Chats online com IA não oferecem:
- cuidado integral;
- suporte clínico adequado;
- estratégias de prevenção;
- manejo de crise;
- compreensão profunda do contexto social, cultural e psicológico da pessoa.
A máquina não considera, de forma realmente humana, o conjunto de vulnerabilidades sociais, culturais, emocionais e psicológicas que atravessam a vida de alguém.
IA não é amiga
IA não é amiga. IA não tem empatia. IA é um programa de computação.
Ainda assim, muitas pessoas podem sentir que estão sendo compreendidas por uma máquina. Isso é amplamente discutido na área da tecnologia e da psicologia.
Nós, seres humanos, temos a tendência de atribuir vida, intenção, sentimentos e consciência a objetos inanimados. Esse fenômeno é chamado de antropomorfismo.
Um exemplo importante para compreender esse processo é o caso ELIZA.
O caso ELIZA
O projeto ELIZA, desenvolvido por Joseph Weizenbaum no MIT, na década de 1960, foi um marco na computação por ser um dos primeiros programas capazes de processar linguagem natural e simular uma conversa.
O intuito do cientista era mostrar que a comunicação entre humanos e máquinas era superficial e baseada em regras lógicas simples. No entanto, a reação das pessoas que testaram o software o impressionou.
Mesmo sabendo que se tratava de um programa de computador limitado, muitas pessoas passaram a atribuir sentimentos, inteligência e compreensão real à máquina.
Algumas se sentiam ouvidas e chegavam até mesmo a pedir privacidade para conversar com o programa.
Esse fenômeno ficou conhecido mundialmente como Efeito ELIZA.
Amizade com IA e impactos nas relações reais
A amizade com IA pode impactar os relacionamentos reais com amigos e familiares.
Quando uma pessoa substitui vínculos humanos por interações com uma máquina, isso pode afetar suas habilidades sociais, especialmente quando há uso excessivo dessa ferramenta.
A IA pode ajudar em tarefas de trabalho, estudo e organização. Porém, sem o cuidado necessário, seu uso pode colocar em xeque competências comportamentais importantes, como:
- capacidade de comunicação;
- inteligência emocional;
- tolerância à frustração;
- pensamento crítico;
- construção de vínculos reais.
Pensamento crítico, criatividade e esforço cognitivo
O pensamento crítico filosófico, base de uma reflexão profunda, surge a partir da dúvida, da testagem do erro, da elaboração de ideias e da capacidade de questionar.
A criatividade também nasce desses processos.
No entanto, muitas atividades que antes exigiam esforço mental, pesquisa, elaboração e tentativa hoje podem ser feitas por meio de poucos comandos.
Criar um texto, produzir uma arte, comprar comida, organizar informações ou conectar ideias se tornou cada vez mais fácil com as tecnologias. Em muitos casos, aquilo que exigia algum esforço passou a ser feito com esforço quase zero.
Um exemplo simples é que, atualmente, não decoramos tantos números de telefone como antes, porque temos a agenda do celular sempre disponível.
Da mesma forma, muitas pessoas utilizam IA para fazer textos, provas, redações e até mesmo buscar algo semelhante à psicoterapia.
Esse processo de depender excessivamente das tecnologias pode estimular uma forma de preguiça cognitiva, na qual ocorre uma limitação gradual das nossas capacidades de pensar, elaborar, criar e agir com autenticidade.
Tecnologia não é inimiga
Pensar de maneira crítica sobre a tecnologia não significa vê-la como um demônio ou como algo totalmente ruim.
Na verdade, precisamos observar as partes.
A tecnologia pode ser útil, potente e facilitar muitos aspectos da vida. Mas precisamos de virtude e prudência para equilibrar seu uso a nosso favor, de uma forma que não seja agressiva à nossa capacidade de pensar, refletir e criar de maneira crítica e autêntica.
Esse equilíbrio está profundamente ligado à nossa saúde mental e física.
Outras questões ligadas à saúde mental coletiva
Existem outras questões profundamente relacionadas ao cenário digital atual que representam uma problemática para a saúde mental coletiva.
Pressões estéticas e sociais
A exposição constante a corpos dentro de padrões rígidos de beleza, acompanhada de vidas romantizadas e aparentemente perfeitas, cria uma visão de realidade inalcançável.
Projeta-se uma ideia impossível de felicidade, produtividade e sucesso em todos os momentos da vida, desconsiderando:
- o cansaço;
- as desigualdades sociais;
- as questões políticas;
- os contextos culturais;
- as condições reais de existência de cada pessoa.
Essa comparação constante pode gerar sofrimento, inadequação e sensação de fracasso.
Fenômenos digitais e exclusão
Somado a isso, o FOMO (Fear of Missing Out), ou medo de estar perdendo algo, é intensificado pelas redes sociais.
Esse fenômeno se caracteriza pelo medo de perder experiências, oportunidades ou momentos gratificantes que outras pessoas parecem estar vivendo.
Além disso, observa-se o crescimento de comunidades online que propagam ódio e preconceito, especialmente contra mulheres e a população LGBTQIAP+.
Esses espaços podem reforçar violências simbólicas, isolamento social, insegurança e sofrimento psicológico.
O risco do uso de IA na saúde mental
Outro ponto crítico é a oferta de psicoterapia realizada por meio de inteligência artificial.
É preocupante o crescimento do número de adolescentes e adultos que buscam suporte emocional em IAs, especialmente em casos de quadros delirantes, nos quais a pessoa percebe estímulos ou constrói interpretações que não condizem com a realidade.
Nesses contextos, a IA pode acabar fortalecendo o delírio ao apenas confirmar a narrativa da pessoa.
Isso pode colocar em risco a vida do paciente e de sua família.
Diferente de uma equipe de profissionais da saúde, a inteligência artificial não oferece cuidado integral, suporte clínico adequado, estratégias de prevenção ou manejo de crise.
Para refletir
A inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil, mas não deve ocupar o lugar das relações humanas, do pensamento crítico e do cuidado profissional.
Usar tecnologia com consciência significa reconhecer seus benefícios, mas também seus limites.
A saúde mental exige presença, vínculo, responsabilidade, escuta ética e cuidado humano.